28 fevereiro 2010

Gato da China



Era uma vez
um gato chinês
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que morava em Xangai
sem mãe e sem pai
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que sorria amarelo
para o Rio Amarelo
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com seus olhos puxados
um pra cada lado
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Era um gato mais preto
que tinta nanquim
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de bigodes compridos
feito um mandarim
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que quando espirrava
só fazia “chin!”
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Era um gato esquisito
comia com palitos
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e quando tinha fome
miava “ming-au!”
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mas lambia o mingau
com sua língua de pau
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Não era um bicho mau
esse gato chinês
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era até legal
Quer que eu conte outra vez?
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José Paulo Paes
(Poemas para brincar, São Paulo: Ática, 1991)

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27 fevereiro 2010

Essência

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Pessoas vestem roupas. Até a minha cama é forrada de lençol. Tem meia para o pé e luva para a mão. Tem calcinha, sutiã, touca e cachecol. Meu cachorro é cheio de pêlos e a montanha é cheia de árvores. Hoje, até as nuvens esconderam o céu e a grama forrou o quintal. Uma coisa é por cima da outra. A bala veio enrolada no plástico e até a borboleta se cobriu. Quando eu tiro a minha roupa, a epiderme não me abre e, se eu me descascasse, ainda seria músculo a enrolar o osso. É. Ainda tem o osso. Talvez eu seja, então, só aquela carninha dentro do osso de uma coxa de galinha.

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26 fevereiro 2010

Faz-de-conta

Ilustração de Patricia Metola
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Basta dizer esta palavra,
tão íntima e amiga,
e ganhamos asas
e tudo era uma vez.
Tudo vira só sonho e magia.

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Dizer FAZ-DE-CONTA
é como se dissesse
ABRACADABRA
e se entregasse à fantasia.
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Elias José
( do livro : PEQUENO DICIONÁRIO POÉTICO-HUMORÍSTICO ILUSTRADO )
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20 fevereiro 2010

Segredo

SEGREDO
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Os carros atropelam minha bola.
A empregada reclama do encerado.
Mamãe esconde sempre meus esqueites,
pois se eu caio
dou despesa e atrapalho.
Os adultos
– cá pra nós –
só dão trabalho.
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Leila Míccolis
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16 fevereiro 2010

O pingüim

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O PINGÜIM
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Bom-dia, Pingüim
Onde vai assim
Com ar apressado?
Eu não sou malvado
Não fique assustado
Com medo de mim.
Eu só gostaria
De dar um tapinha
No seu chapéu de jaca
Ou bem de levinho
Puxar o rabinho
Da sua casaca.
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Vinicius de Moraes
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11 fevereiro 2010

No mundo da lua

Ilustração de Patricia Metola
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NO MUNDO DA LUA

Lá vai a lua ...
Lá vai ! ...
Boiando ...
Como um limão que flutua.
E eu fico de cá, pensando:
Que haverá dentro da lua?
Mas a lua nem me escuta ...
Fura uma nuvem,
Se esconde .
Surge e se põe a me olhar.
Será que de “esconde-esconde”
Ela está me convidando
Para brincar ?
E a lua continua ...
Lá vai andando,
Lá vai !
- Ninguém a está segurando ...
Por que é que a lua não cai ?
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Martins D'Alvares
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